terça-feira, 24 de abril de 2012

Artigo em Inglês publicado na Revista Foreign Policy

Artigo publicado no site da Revista Foreign Policy em 03 de Abril de 2012 em que, no contexto da visita da Presidenta Dilma Rousseff a Washington, é analisada, entre outras questões, a oportunidade da pretensão brasileira à vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Boa leitura!

Equipe Diplomacia e Cultura

Brazil wants some Security Council love. But it won't get it (yet).


Fonte: Foreign Policy
When Brazilian President Dilma Rousseff travels to Washington next week, she won't be looking for a free trade deal or military assistance. Her country, the "B" that begins the "BRICS," primarily wants recognition -- specifically U.S. support for a permanent seat on a revamped U.N. Security Council. But this time around, Rousseff won't even be getting a state dinner.
Washington, due mainly to bureaucratic inertia, isn't ready to give Brazil the recognition it wants. Its reluctance may actually encourage other nations to behave in ways contrary to U.S. interests.
Years of macroeconomic stability, sustainable economic growth, and a cluster of successful social policies gave rise not only to a new and thriving Brazilian middle class, but also to Brazilian multinational companies, the so-called national champions. Externally, these changes translated into greater confidence -- inside and outside official circles -- and a wider scope of international ambitions.
Brazil is beginning to display the characteristics of a regional hegemon -- it has attracted more illegal immigrants from surrounding countries, and helped Colombia's government conduct rescue missions for hostages held by the FARC. And since 2004, Brazil has been leading the U.N. stabilization mission in Haiti. But Brazil's "holy grail" remains a seat at the Security Council table. And it won't get recognition (yet) from the most important member of the Permanent Five, whose support it very much covets.
According to many foreign policy specialists in Washington, Brazil does not deserve a place in the top echelons of the U.N. because it is not a nuclear power and is unwilling to share the burden of leadership. Another line of reasoning highlights the fact that the U.S. does not endorse Brazil's bid -- as it did with India -- because South America is not a very relevant region in the U.S. strategic chessboard. The remaining argument point to the fact that a potential endorsement could hurt U.S. interests with other key allies in the region, specifically Mexico and Colombia.
Even if some of these considerations may hold elements of truth, at the end of the day they hamper the deepening of relations between the two largest democracies and economies in the Western hemisphere. Brazil could do a better job explaining to the U.S. -- and the world -- how it would behave as a permanent member of the Security Council; but the U.S. could also rethink some of its arguments against Brazil.
The fact that Brazil is not a nuclear power and that South America is not a relevant strategic hotspot should count in favor of Brazil's aspirations, not against. If the region is relatively calm, it is because of the collective effort of Brazil and Argentina to end their economic and military rivalry in the 1980s. As a matter of fact, the rapprochement also defused the nuclear component of the rivalry, something that India and Pakistan were not able to do. The U.S. decision to endorse India's bid and ignore Brazil's sends a perverse message. It awards a country that snubbed every major nonproliferation regime while punishing a country that willingly adhered to these very same regimes.
Although the repercussion of the endorsement of Brazil's bid over U.S. interests with key allies in the region is likely to be negative, its importance is widely overplayed. Even nuclear Pakistan's outright resistance did not factor in U.S. geopolitical calculus when it endorsed India's bid. In addition, for some time now, the U.S.-Latin American agenda is in fact a collage of increasingly specific bilateral relations. Any dissatisfaction, therefore, could be dealt with bilaterally without any relevant repercussion on the regional agenda.
Next week's visit by Rousseff is likely to pass without the words that Brazil wants to hear from President Barack Obama. Those words will eventually come from Obama or a future U.S. president, but their absence in the short term will keep relations between the Western Hemisphere's two most important democracies from reaching their productive potential.
Joao Augusto de Castro Neves is an analyst in Eurasia Group's Latin America practice.

domingo, 22 de abril de 2012


Discurso na cerimônia do Dia do Diplomata – formatura da turma de alunos do Instituto Rio Branco - Brasília, 20 de abril de 2012


Fonte: Ministério das Relações Exteriores


É uma honra contarmos com a presença da Senhora Presidenta da República no Itamaraty no Dia do Diplomata.
Hoje é o dia da formatura dos nossos novos colegas, todos já plenamente integrados e desempenhando funções nas diferentes áreas do Itamaraty.

Estamos lidando com as realidades de um mundo novo e de um Brasil novo.

Está em curso um processo de redistribuição do poder nas relações internacionais. E o Brasil atual – o Brasil da democracia e dos direitos humanos, o Brasil do crescimento econômico, da inclusão social e da consciência ambiental – é ator de crescente influência nesse processo.

Desde o início de 2011, temos envidado esforços em favor de uma política externa que reflita as diretrizes e linhas de ação definidas pela Senhora Presidenta da República. Diretrizes e linhas de ação que colocam a política externa a serviço do desenvolvimento nacional em que estamos todos engajados. 

Tem sido intensa, como Vossa Excelência sabe melhor que ninguém, a agenda de visitas a outros países e a participação em eventos multilaterais. Da mesma forma, têm sido numerosas as autoridades estrangeiras recebidas em Brasília, que é hoje uma das capitais do mundo com maior atividade diplomática.

Na cerimônia de hoje, não caberia passar em revista tudo que foi feito nestes últimos 16 meses. Gostaria, sim, de assinalar algumas ênfases e idéias que vão traçando o perfil da atuação externa do Brasil na Presidência Dilma Rousseff.

Começaria por mencionar a prioridade atribuída a ciência, tecnologia e inovação, com vistas a contribuir para a ascensão do Brasil a um novo estágio de desenvolvimento, fundado em uma economia mais flexível e competitiva. Esta ênfase reflete-se, por exemplo, no temário de várias das visitas realizadas e na cooperação educacional impulsionada pelo “Ciência sem Fronteiras”. Nossas Embaixadas e Consulados estão mobilizados na identificação de oportunidades no exterior para estudantes e pesquisadores brasileiros.

Outra ênfase diz respeito ao contato com o setor privado e o conjunto da sociedade civil. A agenda internacional de Vossa Excelência tem-se caracterizado por uma interlocução estreita e sistemática com representantes de empresas brasileiras que, em número crescente, dirigem seu olhar e seus investimentos para outros países. Assim foi em Hannover, Washington e Havana.

Há pouco mais de um mês, na viagem presidencial a Hannover, um empresário brasileiro da área de tecnologia da informação comentou que traços distintivos da competitividade brasileira são a criatividade e a imaginação. Precisamos aprender a melhor aproveitá-las.

É possível dizer que uma certa criatividade tem estado presente em contribuições conceituais do Brasil para importantes debates internacionais. Em alguns casos temos conseguido algo que, sabidamente, não é trivial: incluir novos temas na agenda global. 

Nas Nações Unidas, em setembro do ano passado, Vossa Excelência lançou o conceito de “responsabilidade ao proteger”, como complemento necessário da chamada “responsabilidade de proteger”. Trata-se de maneira inovadora de dirigir a atenção para aspectos obscurecidos em muitas das discussões sobre o uso da força para a proteção de civis, deixando clara a responsabilidade de quem protege: em hipótese alguma poderá causar mais destruição e instabilidade do que pretende evitar.

Também na esfera das relações comerciais e financeiras introduzimos idéias inovadoras. Em linha com as manifestações públicas de Vossa Excelência, o Brasil ajudou a trazer para a OMC a questão dos efeitos do câmbio sobre o comércio. Após vencermos resistências de todo tipo, conseguimos abrir caminho para o tratamento de tema que passa a ser amplamente reconhecido como atual e relevante. 

Essa confluência de ênfases e idéias está no cerne do esforço para a preparação da Conferência Rio+20. O caminho percorrido pelo Brasil na conformação de um novo modelo de desenvolvimento com inclusão social e consciência ambiental; a prioridade atribuída, também na ação externa, a ciência, tecnologia e inovação; a incorporação crescente, ao nosso trabalho, da perspectiva do setor privado e da sociedade civil; nossa capacidade criativa nos posicionam como anfitrião capaz de fazer da Rio+20 momento histórico na consolidação de um novo paradigma de desenvolvimento.

Senhora Presidenta, caros formandos,
O Brasil quer ajudar a construir uma ordem internacional mais justa e conducente ao progresso econômico e social.

Como observou a oradora da turma, a transformação do sistema internacional não é um movimento natural, pelo qual se possa esperar passivamente. Há que se trabalhar por uma transformação que leve ao surgimento de um sistema internacional mais cooperativo, melhor capacitado para promover o desenvolvimento e a paz.

Estamos especialmente bem posicionados para esse objetivo. 

Temos relações diplomáticas com todos os países das Nações Unidas.

Estamos ampliando os quadros do serviço exterior, tanto na carreira de diplomata como na de oficial de chancelaria. 

Contamos com uma rede de representações diplomáticas e consulares que figura entre as maiores do mundo.

A partir dessa base institucional, que procuraremos sempre fortalecer, o Itamaraty empenha-se em contribuir para a inserção internacional de um Brasil que articula dois imperativos: o aprofundamento da integração sul-americana, nossa prioridade, e a ampliação de nossa presença em escala global.
No primeiro caso, além da atenção diferenciada à relação bilateral com cada vizinho, nos valemos de processos dinâmicos e abrangentes de integração, como o MERCOSUL, a UNASUL a CELAC.

No segundo caso, trata-se de reforçar parcerias com o mundo desenvolvido e em desenvolvimento: isso envolve não somente um olhar especial sobre a África, nosso vizinho atlântico, como a consolidação das relações bilaterais com os pólos da ordem internacional que se desenha, sejam potências estabelecidas, sejam emergentes, e a interlocução com o IBAS e o BRICS.

Costumo dizer que os diplomatas brasileiros precisam ser mais sul-americanos e mais multipolares. Precisam ser mais multilíngües. Precisam da visão de conjunto e, simultaneamente, de conhecimento técnico. 

Quero registrar meu reconhecimento ao Embaixador Georges Lamazière, que tem introduzido alterações curriculares para modernizar nossa formação profissional.

Assegurar a vitalidade desse espírito de aperfeiçoamento de nosso profissionalismo é a melhor homenagem que podemos prestar ao legado do Barão do Rio Branco, cujo centenário de morte lembramos este ano.
Senhoras e Senhores,

Felicito os formandos pela escolha de seu paraninfo. 

O Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães é um talentoso diplomata, um respeitado intelectual, um incansável professor. Como Secretário-Geral, teve uma gestão marcada pelo empenho no fortalecimento institucional do Itamaraty. Continuo a inspirar-me no seu exemplo e na sua visão de um Brasil próspero, justo, democrático e soberano.

Felicito a turma, também, pela justa homenagem que fazem a Milena Oliveira de Medeiros, jovem diplomata cujo desaparecimento prematuro foi profundamente sentido por todos nesta Casa. 
Ao cumprimentar seus familiares, quero dizer que a Secretária Milena deixou lembranças indeléveis em todos que pudemos privar de seu convívio. Não me esquecerei de nosso encontro em Malabo, na Guiné Equatorial, durante a reunião ministerial da ASA, quando pude descobrir uma jovem talentosa e determinada, e conversar sobre sua carreira e sua paixão pela música.

Caros formandos,

Vocês escolheram uma profissão que, abraçada com entusiasmo e espírito público, oferece oportunidades de realização pessoal e profissional praticamente ilimitadas.

A preservação e ampliação do patrimônio da diplomacia brasileira agora é também tarefa de Vocês. 

Muito obrigado.

sábado, 14 de abril de 2012

Artigo em inglês

Em importante artigo publicado no jornal indiano The Economic Times, a Presidenta Dilma Rousseff, no contexto da IV Reunião de Cúpula dos BRICS, em Nova Delhi, analisa, entre outros pontos relevantes, a parceria estratégica entre Brasil e Índia, a convergência entre os dois países para a aclamada reforma da governança global, seus modelos de crescimento e o crescente incremento das relações comerciais entre os BRICS. 

Boa leitura!

Igor Moura

BRICS members Brazil and India are strategic partners for a new world vision

Artigo de autoria da Presidenta Dilma Rousseff publicado no jornal indiano "The Economic Times" (29/03/2012)



Dilma Rousseff

As BRICS countries meet in New Delhi today, it is with great satisfaction - and high expectations - that i visit India for the first time as president of Brazil. Geographically distant from each other, our countries share unique experiences. Both of them are multicultural, multi-ethnic, multi-religious and democratic nations. But that is not all. The gigantic internal process of social ascension that led tens of millions of families into the consumer market, by creating opportunities for all, has made India and Brazil examples for the world. In a time when economic crisis, unemployment and recession are on the agenda, Brazil and India stand out as growth models.

This is the framework in which i had the satisfaction to accept Prime Minister Manmohan Singh's invitation to pay a state visit to India, after the BRICS summit meeting. It will be a privilege to represent Brazil as a guest of the government of India and to pay my tribute to Mahatma Gandhi, the symbol of a revolutionary vision in asserting national identity.

This visit will allow our countries to consolidate a substantive bilateral agenda and to strengthen similar foreign policy principles, including the staunch defence of the interests of our poorest populations, the promotion of sustainable economic growth and an independent international position that is coherent with the new world order.

These are reasons why Brazil and India strongly converge for the reform of international organisations, whether it is expansion of the UN Security Council and the creation of a new responsibility model within the IMF, or the establishment of new high-level forums, such as G20, IBSA, BASIC and BRICS, whose fourth summit meeting is taking place in New Delhi.

This current meeting of the leaders of Brazil, Russia, India, China and South Africa is an undeniable demonstration of how geographically distant countries, with different social and economic challenges, can become partners and generate a convergence that changes the axis of international politics. BRICS contain roughly a third of the world's population and a fifth of its GDP. Our economies and markets can strongly benefit from one another. Trade among BRICS rose from $27 billion in 2002 to $212 billion in 2010. This year it may reach $250 billion. BRICS will be responsible for 56% of world growth in 2012. In this forum, Brazil and India have been sharing their points of view and expanding their partnerships.

Brazil and India have had diplomatic relations since 1948, but only in the 21st century has our integration truly begun. In this period, our countries have signed more than 30 bilateral agreements, in fields ranging from science to trade. Indian-Brazilian trade rose from under $500 million in 1999 to $9.3 billion in 2011 - an increase of almost 2,000%. This makes India our 12th largest trade partner - a relevant position that, however, is obviously not reflective of our economies' dynamism. There still is much to be done.

Recently, Embrapa (Brazilian Agricultural Research Corporation) and the Indian Council of Agricultural Research have sealed a partnership for the exchange of experience in the strategic sectors of food production and biotechnology research. Knowing Embrapa's successful work in seedling selection and expansion of production in regions with climate and soil similar to India's, i am positive this partnership will bear fruit for both countries.

In the defence area, a pioneer project integrating our technologies is currently underway: the installation of Indian airborne radars onto Brazilian Embraer-145 airplanes. The maiden flight of the first aircraft will take place in less than one month. In the health sector, we have been carrying out joint projects, through the Indo-Brazilian Science Council, in areas such as parasitology (leishmaniasis and malaria), microbiology (tuberculosis) and virology ( HIV/AIDS).

Among the great examples India has given the world recently, the quality leap in education and scientific research, especially in information technology, has drawn much attention. For this reason, this official visit will be a great opportunity for Brazil to sign an agreement with India under my government's programme 'Science without Borders', which will make it possible for Brazilian teachers and students to study in Indian universities. Likewise, the doors of our teaching institutions will remain open for Indian academics. It is also our goal to increase the flow of tourists, so that more Indians and Brazilians can have the opportunity to enjoy each other's natural beauty, unique cuisines and the joy of our peoples.
During this visit, we intend to foster our converging interests in other areas, such as environmental issues.

The Convention on Biological Diversity, to be held in India, and the United Nations Conference on Sustainable Development Rio+20, to be held in Brazil, are rare opportunities for our countries to show their commitment to sustainable economic development, which protects the environment and expedites the social inclusion of the poorest.
Brazil and India are two emerging, dynamic economies committed to the challenge of combining sustainable economic growth with income distribution and social inclusion. Our countries have come a long way in the recent past.

The fact that our association has become so much more intense in the same period is by no means just a happy coincidence. Although physically distant, Brazil and India are strategic partners for a new world vision. One that is inclusive, sovereign and democratic.
Recently, Embrapa (Brazilian Agricultural Research Corporation) and the Indian Council of Agricultural Research have sealed a partnership for the exchange of experience in the strategic sectors of food production and biotechnology research.

Knowing Embrapa's successful work in seedling selection and expansion of production in regions with climate and soil similar to India's, i am positive this partnership will bear fruit for both countries.

In the defence area, a pioneer project integrating our technologies is currently underway: the installation of Indian airborne radars onto Brazilian Embraer-145 airplanes. The maiden flight of the first aircraft will take place in less than one month. In the health sector, we have been carrying out joint projects, through the Indo-Brazilian Science Council, in areas such as parasitology (leishmaniasis and malaria), microbiology (tuberculosis) and virology ( HIV/AIDS).

Among the great examples India has given the world recently, the quality leap in education and scientific research, especially in information technology, has drawn much attention. For this reason, this official visit will be a great opportunity for Brazil to sign an agreement with India under my government's programme 'Science without Borders', which will make it possible for Brazilian teachers and students to study in Indian universities. Likewise, the doors of our teaching institutions will remain open for Indian academics.

It is also our goal to increase the flow of tourists, so that more Indians and Brazilians can have the opportunity to enjoy each other's natural beauty, unique cuisines and the joy of our peoples.

During this visit, we intend to foster our converging interests in other areas, such as environmental issues. The Convention on Biological Diversity, to be held in India, and the United Nations Conference on Sustainable Development Rio+20, to be held in Brazil, are rare opportunities for our countries to show their commitment to sustainable economic development, which protects the environment and expedites the social inclusion of the poorest.

Brazil and India are two emerging, dynamic economies committed to the challenge of combining sustainable economic growth with income distribution and social inclusion. Our countries have come a long way in the recent past.

The fact that our association has become so much more intense in the same period is by no means just a happy coincidence. Although physically distant, Brazil and India are strategic partners for a new world vision. One that is inclusive, sovereign and democratic.
The writer is the president of Brazil

domingo, 27 de novembro de 2011

Discurso proferido pelo Embaixador Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Paraninfo da Turma Zilda Arns do Instituto Rio Branco

Hoje compartilho com vocês o excelente discurso do Embaixador Gonçalo de Barros, proferido por ocasião da cerimônia de formatura da turma 2008/2010, do Instituto Rio Branco. O diplomata nos brinda com uma relevante mensagem, remetendo os formandos do IRBR à reflexão sobre tradição e inovação na diplomacia brasileira, ascensão e queda de grandes potências na história da humanidade e como o Brasil deve se colocar frente a esse desafio, e ainda, que a verdadeira amizade, baseada na solidariedade e igualdade entre as nações, concede e constrói relacionamentos bem mais duradouros e sustentáveis. Segue o discurso na íntegra.


Boa leitura!

Igor Moura

Excelentíssimo Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República
Excelentíssimo Senhor Embaixador Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores e Excelentíssima Senhora Embaixatriz Ana Maria Amorim
Excelentíssimo Senhor Embaixador Antônio de Aguiar Patriota, Secretário Geral das Relações Exteriores
Excelentíssimo Senhor Embaixador Georges Lamazière, Diretor do Instituto Rio Branco
Excelentíssimo Senhor Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário de Estado e demais autoridades
Meus colegas diplomatas e funcionários do Serviço Exterior
e, muito especialmente
Caros colegas cuja formatura comemoramos hoje e seus familiares

O Itamaraty é uma instituição de tradições.
Talvez, uma das mais sólidas de nossas tradições seja precisamente esta: repetirmos que somos uma instituição de tradições.   Mas as tradições sobre as quais nos apoiamos não são formas de passadismo, não são um passado que se repete.   Pelo contrário, nossas tradições são a repetição de um presente que se renova ;  permanecem porque criam e não porque se imobilizaram.
A diplomacia do Brasil constrói-se, constantemente, com tradição e inovação.   Não foi à toa, aliás, que o Embaixador Celso Amorim recebeu, há poucos dias, um extraordinário prêmio, exatamente, por seus méritos de Inovador.
Muitas de nossas tradições são histórias, situações, frases  -  algumas que até talvez nem tenham existido mas que vivem, exatamente porque expressam um presente constante de aspectos de nossa atividade diplomática e não simplesmente um passado que se rememora.   Nossa tradição maior é inovar.
Este aparente paradoxo de nossas tradições é que faz com que a carreira de diplomata seja composta por uma quantidade constante de surpresas ;  surpresas quase sempre comuns e recorrentes, porque já são tradicionais mas que são sempre surpresas :  às vezes agradam, às vezes assustam, às vezes até espantam.   Há uma surpresa, entretanto, que não ocorre com freqüência em nossa carreira e é esta com que vocês quiseram me honrar, ao me convidarem para paraninfo de sua turma.
Ao receber e aceitar, com agrado e com espanto, a surpresa do convite, lembrei-me imediatamente de uma de nossas histórias tradicionais, que é a seguinte :  dizem que o Chanceler Araujo Castro, logo após o golpe de estado de 1964, aguardava em casa, demissionário, que o futuro que lhe reservariam os militares que assumiram o poder.  Esperou alguns longos dias até que, finalmente, recebeu um telefonema de um tenente-coronel qualquer, convocando-o a comparecer ao Palácio das Laranjeiras.   Era uma época de cassações e perseguições e o Castro ficou, naturalmente, apreensivo.   Não querendo arriscar-se a ir sozinho, ligou para vários de seus ex-auxiliares no Ministério mas todos tinham uma desculpa, muito sólida, para não aceitarem o convite espinhoso de acompanhá-lo.   Ligou, finalmente, para o Embaixador Azeredo da Silveira, explicou a situação e fez a pergunta fatídica :  "Então, Silveira, você vai comigo ?"   Dizem que o próprio Castro contava que passaram-se uns segundos de silêncio e ele ouviu a voz fanhosa do Silveirinha responder :  "Olha, Castro, eu vou.   Mas que convite dos diabos esse que você me faz !"
Eu aceitei, também, o convite de vocês e estou aqui, então.   Mas que convite complicado !   Não, graças a Deus, pelos mesmos riscos que correu o Chanceler Araujo Castro em 64, mas pela responsabilidade de ter que falar sobre política externa, sobre diplomacia, sobre vida diplomática, diante do Presidente da República, que determina nossa política externa, do Ministro de Estado, que orienta sua execução e de todos os colegas, que exercem a diplomacia diariamente ;  e diante de vocês, novos colegas, quase a metade dos quais já está em posto, padecendo ou usufruindo plenamente da vida diplomática.   O que dizer aqui sobre política externa, diplomacia ou vida diplomática ?
Socorro-me, então, da tradição.
Outros de nós já foram convidados para paraninfos de turmas anteriores, desde os simples Embaixadores  -  como eu  -  até os Secretários-Gerais e o próprio Ministro de Estado.   E eu me lembro das belíssimas palavras da querida Embaixadora Heloísa Vilhena quando, também paraninfa, nos explicou anos atrás, nesta mesma sala, a origem e significado da palavra paraninfo e nos encantou com sua explicação.
A Heloísa nos dizia que a palavra vem de uma expressão grega que designava, inicialmente, aqueles que acompanhavam a noiva ou o noivo e os conduziam ao local das núpcias.   Daí, passou a designar aqueles que conduzem os novatos a seu novo estado.   Esta é a tradição.   E esta é a tradição que se repete hoje ;  mas se repete renovada.   Renovada porque vocês, de quem eu sou hoje o paraninfo, já não são mais noivos ou noivas ;  já estão casados há uns dois anos com essa nossa carreira e eu espero que nenhum já esteja pensando em divórcio.   Mas, então, de que sou eu paraninfo, nesta nova situação ?   A que novo estado fui eu chamado a conduzir vocês ?
Eu lhes dei algumas aulas, delicadas, de linguagem diplomática.   Delicadas, por um lado, porque, se amanhã vocês expressarem conceitos esdrúxulos sobre relações internacionais ou se claudicarem no francês, ninguém perguntará quem lhes deu aulas disso no Rio Branco ;  mas, se entregarem uma minuta de telegrama com algum despropósito de redação a seu Chefe de Departamento, ele vai logo perguntar :  “Você não teve aula de linguagem diplomática no Rio Branco, não ? ”   Mas, por outro lado, aulas delicadas porque pretendi, também, transmitir algum sentimento sobre o que eu entendia que deveria ser um diplomata brasileiro e, mais ainda, sobre o que eu entendia que deveria ser o Brasil de um diplomata brasileiro.   Já não há mais tempo para transmitir nada sobre linguagem diplomática ;  mas creio que posso tentar mostrar, em poucas palavras, a que Brasil eu gostaria de vê-los chegar, como diplomatas, já que vocês me colocaram aqui hoje neste parlatório.
O Itamaraty é uma instituição de tradições mas não somos reféns do passado, pelo contrário, somos aqui reféns do futuro.   Nós vivemos no futuro ;  mas não num futuro de sonhos.   Nós, diplomatas, vivemos e trabalhamos naquele futuro de que falava o grande poeta Eliot, nos Quatro Quartetos, onde expressou a intuição extraordinária da realidade do tempo, nos versos que dizem assim :  "O tempo presente e o tempo passado / estão ambos talvez presentes no tempo futuro / e o tempo futuro contido no tempo passado".
Este é o nosso tempo, o tempo dos diplomatas :  uma espécie de futuro que é passado e que é presente.   O que significa isto em política externa, o que significa isto nas relações internacionais do Brasil ?
Significa o que eu venho dizendo, que nós não devemos pretender meramente repetir nossas tradições mas, na repetição das tradições, inovar sempre.   E nós estamos inovando.   Inovando dentro de uma tradição, com a qual aprendemos o mal e o bem :  a tradição de nossa formação nacional, da trabalhosa construção de nossa nacionalidade, dos relacionamentos com nossos vizinhos, da longa busca e consolidação de uma sociedade nacional igualitária.   E a tradição nova, que se vai instalando, de nossa insistência na busca e na institucionalização da solidariedade.
O filósofo espanhol Ortega y Gasset tem uma das frases lapidares do sofrido século XX ;  dizia ele :  “Eu sou eu e minha circunstância e se não a salvar, não me salvarei”.   Esse conceito nós devemos aplicar não só aos indivíduos mas, enquanto diplomatas brasileiros, também a nosso país.
O Brasil é um país que vem crescendo, às vezes lentamente mas sempre inexoravelmente.   Já somos um país grande e podemos muito bem supor que seremos um país cada vez maior.   Crescemos dentro de nós e crescemos no mundo, em nossa circunstância.   E isso nos coloca frente à pergunta crucial, que nós diplomatas nos devemos fazer sempre :  nós crescemos no mundo, para que ?
Desde quando nos lembra a história, países têm crescido e potências têm surgido e se sucedido como protagonistas no cenário internacional.   Potência após potência.   Império após Império.   Mas têm crescido sozinhos, sem se preocuparem, genuinamente, com o crescimento de suas circunstâncias :  por isso se perderam.   Porque as circunstâncias dos países são os outros países e, hoje, cada vez mais, todos os outros países.   As potências se sucederam na história, umas após as outras, sem deixar nenhum rastro ontologicamente novo e diferente nas relações internacionais, que não fosse o da dominação e destruição de suas circunstâncias.   Que não fosse o egoísmo do crescimento a todo custo.
O Brasil cresce, inexoravelmente e um dia vamos ser uma potência.   Mas  -  volto a perguntar  -  cresce para que ?   Apenas para repetir, sem inovar, uma tradição política milenar ?   Então, se for assim, isso significará apenas que nós seremos ricos, teremos submarinos nucleares e fronteiras vigiadas e seguras, colheitas gigantescas, centros de pesquisa avançadíssimos, moeda forte ;  seremos grandes, nos imporemos pelo mundo a fora, poremos e disporemos.   Eventualmente, alguns descontentes queimarão umas bandeiras nossas aqui e ali, talvez explodam umas bombas de protesto contra nós em Copacabana ou aqui na Rodoviária e assim, aos poucos, estaremos, ineludivel e implacavelmente, cercados de estrangeiros.   Depois, quando estivermos então entrando em nossa decadência  -  porque cedo ou tarde todos entram em decadência  -  a História registrará, em sua longa lista de impérios, o nosso, como um pequeno império de turno a mais, que o egoísmo dos homens gerou e que um dia sucumbirá a outro, na corrida implacável da história como nós a conhecemos.
Não, Senhor Presidente, Senhor Ministro, caros colegas, o Brasil não pode ser isso.   Não é para isso que nós devemos querer que o Brasil cresça.   Não é para repetir a história do egoísmo e da solidão.   Se quisermos ter um papel e uma presença no mundo, temos que ser outra coisa.   E podemos, por nossa história, por nossa formação, pelas lutas e pela índole do nosso povo e, também, por nossa circunstância, nós podemos ser outra coisa.
Essa outra coisa é a expressão e a prática da solidariedade, é a verdadeira cooperação, é a integração com nossa circunstância, é o altruísmo que incorpora o outro e se incorpora ao outro.   Esta outra coisa, na verdade, é o Amor.
Parece um escândalo !   Falar de amor em relações internacionais !   Em política externa e política internacional, falar de amor !
Mas sim, Senhor Presidente, Senhor Ministro, meus colegas.   Se nós não formos capazes de crescer juntos e em estreita intimidade com nossa circunstância, se não formos capazes de desenvolver esse novo tipo de relação com os outros em torno de nós, se não soubermos ser ontologicamente iguais, passaremos a ser, nós, o Brasil, mais um dos grandes, cuja passagem pela história das relações internacionais terá sido tão melancólica quanto a das demais potências que se sucederam, que todas mais contribuíram para a discórdia e o desentendimento entre os homens, do que para fazer caminhar a humanidade na direção de um desenvolvimento comum e geral, de uma solidariedade nas alegrias e nas misérias, na direção do Amor.
E esta, eu entendo assim, terá sido também a mensagem que vocês, nossos mais novos colegas, nos quiseram passar hoje, ao fazer esta extraordinária homenagem de escolher para patrona da turma a Dona Zilda Arns.   Poucas pessoas, como ela, no Brasil, souberam construir essa prática do amor levado às mais remotas circunstâncias.   Poucas pessoas como ela, no Brasil, nos ensinam que dar é dar, sem se preocupar em receber.   Ao morrer no Haiti, aonde tantos outros brasileiros foram e estão indo e continuarão a ir, imbuídos daquele mesmo altruísmo da verdadeira solidariedade, Dona Zilda nos indicava como a ação dos indivíduos pode ser também a ação dos governos, se esses governos procuram o desenvolvimento de verdadeira cooperação em suas relações internacionais.   Dona Zilda nos ensina que não só os brasileiros e a circunstância individual de cada um mas o Brasil, como país em sua circunstância internacional, pode desempenhar na história um papel novo e desejado, de motor da solidariedade e da verdadeira igualdade entre as diferentes nações e entre os diferentes povos.
Vocês devem ter estudado em Teoria das Relações Internacionais a velha e batida máxima de que os países não têm amigos, têm interesses e que aos diplomatas cabe defender aqueles interesses.   Pois bem, eu pergunto então :  e se nosso interesse é ter amigos ?   Eu acredito que nós hoje, diplomatas brasileiros, estamos chamados a defender esse nosso interesse novo, que é o interesse de ter amigos.  A mera defesa de interesses próprios separa e destrói.   A verdadeira amizade, pelo contrário, concede e constrói.
Isso me lembra a anedota do Embaixador da Hungria que foi mandado em missão espinhosa, no começo do século passado, à Romênia e ao ser suspeito de intransigência em seu diálogo com o Chanceler rumeno, teria respondido :  “Senhor Ministro, não sou intransigente ; quando vim à Romênia, coloquei na cabeça que nas conversas com Vossa Excelência teria que levar sempre em consideração 3 opiniões :  a de Vossa Excelência, a minha e a boa”.
Assim devemos ser nós, os diplomatas brasileiros, alguém que leva sempre em consideração a boa opinião, mesmo apesar da sua própria.
Pois a diplomacia não é apenas uma questão de conteúdo, é também, como todos sabem, uma questão de forma.   A velha questão da linguagem apropriada.
A esse respeito, ouvi uma vez em Londres una definição peculiar e pitoresca do que seja um diplomata.   Perguntaram ao famoso Chanceler britânico Lord Balfour o que era diplomacia e ele respondeu com esta espécie de parábola.   Havia um poderoso Califa que certa noite sonhou um sonho assustador :  ele sorria ao espelho e via cairem, um a um, todos os seus dentes.   Mal acordou, convocou os dois mais importantes adivinhos de seu califado e perguntou o que significava aquilo.   O primeiro lhe respondeu :  “Sofrimento e dor, Majestade !   Os dentes são Vossos filhos, que Vossa Majestade verá morrerem um atrás do outro e que com lágrimas enterrará”.   O Califa enfureceu-se com a notícia e mandou imediatamente empalar o adivinho de mau agouro.   Chamou o outro, então, que lhe fez um salamaleque e disse :  “Alegrai-vos, Senhor !   Os dentes são vossos filhos ;  e os deuses, que vos protejem, decidiram prolongar vossa vida mais além até do que a vida de vossos descendentes, para vossa maior glória e para maior felicidade de vossos súditos”.   O Califa, naturalmente, o cumulou de ouro.   Este último, segundo Lord Balfour, seria um diplomata.
Isso não significa que o diplomata deva mentir mas, sim, que deve buscar sempre a melhor maneira de transmitir sua verdade.   E a melhor maneira, em 99 por cento das vezes, é sempre com delicadeza, mesmo se com rude delicadeza, quando a situação assim o exigir .   O Chanceler Gibson Barboza me contou que certa vez perguntou a um jovem secretário sua opinião sobre um assunto espinhoso e o secretário lhe disse :  “Embaixador, posso ser sincero com o Senhor ? ”   O Gibson teria respondido :  “Meu filho, basta ser educado”.
Mas eu quero terminar sugerindo a vocês uma das melhores definições, para mim, do que deva ser um diplomata.   É uma definição que podemos tirar de uma extraordinária quadra de violeiro, creio que do inigualável cantador Cego Aderaldo  -  ou talvez tenha sido do Romano da Mãe d’Água ou do Inácio da Catingueira  -  quadra que retoma uma imagem medieval para definir a imaculada conceição de Nossa Senhora.  Se não me falha a memória  -  e me desculpem se desafino  -  , a quadra diz assim :
“No ventre da Virgem Santa
    Entrou a Divina Graça ;
    Como entrou, também saiu,
    Feito sol pela vidraça”
Isso deve ser o diplomata :  um sol que leva seu calor através da vidraça, sem estilhaçá-la ;  pode até esquentar a vidraça, mas jamais quebrá-la.
Eu volto, então, para finalizar, àquela pitoresca tradição da resposta do Chanceler Azeredo da Silveira, a que me referi no começo.   E volto para lembrar que o interesse daquela história não é apenas anedótico mas encerra um ensinamento vivo.   O de que o diplomata brasileiro deve ir a todos os lugares e aceitar todos os convites, na certeza de que em toda parte entrará e se fará ouvir, e sem quebrar vidraças.
    Senhor Presidente, Senhor Ministro, meus colegas.
Nestes últimos anos o Brasil abriu embaixadas em toda parte.   Eu mesmo tive a feliz incumbência de trabalhar para abrirmos as 8 Embaixadas que nestes últimos 8 anos o Brasil abriu no Caribe, fazendo-se, assim, presente em todos os países do continente americano.   E com isto eu me lembro, então, agora, do lema interessante e fecundo do dicionário Larrousse, que diz :  “Eu semeio por todos os ventos”.   Pois aqui, Senhor Presidente, Senhor Ministro, meus colegas, aqui estão 115 sementes que o Brasil vai semear por todos os ventos ;  e podem ter certeza de que a colheita vai ser farta.
Muito obrigado.




domingo, 20 de novembro de 2011

O espaço Diplomacia e Cultura!

Este Blog destina-se a ser um espaço para a reunião de livros, artigos, notícias, entrevistas, discursos, vídeos, e outras composições relacionadas à diplomacia e à cultura em geral, com vistas a ser uma ferramenta de apoio àqueles que buscam a aprovação no Concurso. 

Sob a ótica dos que almejam a aprovação, e com a plena consciência da árdua e longa preparação que se avizinha, procuraremos trazer contribuições das mais diversas e significativas àqueles que, assim como nós, aspiram a uma vaga no tão sonhado Instituto Rio Branco. 


A nossa pretensão é de que este ambiente se torne um referencial aos que buscam ampliar e aprofundar seus estudos, de modo a permitir a troca de informações e o acesso à publicações relacionadas ao programa do concurso.


Bons estudos!


Equipe Diplomacia e Cultura